Por favor, vamos parar de falar de economia! Chega!!! Sejamos humanos! Vamos falar de vidas!

Sem comida as pessoas morrem. Sem emprego, sem produção e distribuição, a comida some, desaparece. A comida cresce, sim, em árvores, mas alguém precisa plantar e colher, e alguém precisa trazer até quem necessita de comida. Não há mágica.

As pessoas também precisam de abrigo, de roupas, de descanso e, agora, mais do que nunca, de remédios. Se tudo parar, como vamos ter todas essas coisas?! Na verdade, é disso que muitos falam quando estão mencionando a dita “economia”. Nossa sociedade tem uma série de interconexões: precisamos da fabricante de eletrônicos para receber e ler essa mensagem, precisamos do lojista para comprarmos produtos, precisamos da empresa de energia para ligar nossas máquinas, precisamos dos professores que nos ensinam tanto. Vivemos em uma troca orgânica onde todos dependem de todos e nos ajudamos mutuamente, gerando valor uns para os outros.

Agora, se por algum motivo, de repente, todo mundo para de trabalhar, o que acontece? Isso todos sabemos intuitivamente, pois já ouvimos ou vivenciamos efeitos de greves: as coisas começam a faltar. Só que podem acontecer coisas ainda mais graves. Se tudo ficar parado por muito tempo, as empresas ficam sem dinheiro para pagar os funcionários, e começam a demitir ou fechar. Quanto maior o desemprego, menor é a capacidade de consumo (a harmonia mencionada acima é quebrada), e começamos a entrar em um ciclo vicioso de empresas que vendem cada vez menos, gerando crescente quebradeira e desemprego.

Podemos, ao final, entrar em um completo colapso. Muita gente acha que, depois de um tempo ruim, sempre vem a recuperação, mas nem sempre é assim! Fábricas podem falir e nunca mais voltar, tornando “inviáveis” cidades inteiras; um pai de família pode perder um bom emprego e depois nunca mais conseguir um emprego que pague tão bem. Há muitos efeitos ruins na economia que podem ser irreversíveis. Isso sem falar em casos mais graves, como o de um banco quebrar, em que fica difícil até imaginar como isso seria uma bomba atômica na vida das pessoas.

Vi muita gente compartilhando o seguinte post: “Melhor falido do que falecido!”. Mas… é tão complexo entender que, se todos estiverem falidos, vamos todos falecer?! Além disso, é preferível enfrentarmos a incerteza da doença (que é grave e assusta demais!) ou termos certeza de que vamos falir? E lembro que não vamos falir individualmente. Vai ser o país que vai falir, não vai ter ninguém para ajudar ninguém, todos vão estar quebrados. Teremos não só um colapso da Saúde, mas um colapso da Educação, da Segurança, do Abastecimento, da Moradia e tudo mais que você possa imaginar.

Para alguns, basta o governo dar dinheiro ou comida para todo mundo, mas isso se resume a uma ilusão neste momento. Se ninguém estiver trabalhando, de que servirá um papel escrito R$ 50 ou R$ 100, uma vez que não haverá nada para comprar? Caso o governo decida distribuir bens e comida, até quando isso poderá se manter, se todas as fábricas estiverem paradas, se todos os transportes estiverem fechados?

Outros vão argumentar: “vamos parar tudo só por um momento, depois voltamos, e aí vamos ter achatado a curva de contágio que causaria o colapso do sistema de Saúde”. Talvez sim, mas talvez simplesmente tenhamos adiado esse colapso do sistema de Saúde, pois o vírus só pode ser freado por vacina (que ainda vai demorar meses para ficar pronta) ou pela chamada “imunidade de rebanho” (quando a maior parte da população já contraiu a doença e já ficou imunizada). Nesse cenário terrível, em que a quarentena só atrasa o pico do contágio ao invés de suavizá-lo, após meses de isolamento total, teremos fome completa e o <inevitável> colapso do sistema de Saúde.

Em estudo elaborado pelo Ministério da Fazenda, à época, foi estimado que a greve dos caminhoneiros de 2018, que durou cerca de 10 dias, trouxe um impacto de R$ 15,9 bilhões na economia, o que representou 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil daquele ano. Quanto pode impactar a atual paralisação? Creio que, no mínimo, terá o mesmo impacto que a greve dos caminhoneiros, concorda? Temos muitos mais setores parados (todo o comércio e boa parte do setor de serviços e produção).

Ok, vamos tomar esse valor como base e imaginar que o impacto dobra a cada 10 dias – o que ainda é bem prudente e não considera totalmente o ciclo vicioso que uma recessão produz. Com base nessa metodologia, temos que, em 30 dias, o efeito será, no mínimo, de R$ 63,6 bilhões. Será que isso é pouco? Em dois meses, serão R$ 508 bilhões de perdas, ou seja, queda de cerca de 6% do PIB (algo nunca visto nem nas piores recessões da história brasileira), o que, por si só, já poderia gerar o caos. Em 3 meses, as perdas poderiam gerar prejuízos de mais de R$ 4 trilhões, destruindo metade do nosso PIB, isto é, em um cenário otimista, em três meses, o Brasil quebraria totalmente. Aí, já não vai mais ser preciso doença, pois morreremos quase todos de fome e em meio ao caos. Será pior que uma guerra, pois teremos perdido sem nem sair de casa.

Em estudo publicado recentemente por pesquisadores da UFMG, é estimado que, entre os brasileiros, a camada de menor renda deve ser a mais afetada pelo impacto econômico do Corona vírus. Em um cenário projetado de queda do PIB e do nível de emprego, o estudo concluiu que as famílias com renda entre 0 e 2 salários mínimos podem ter sua renda 20% mais impactada do que a média das famílias brasileiras. Isso evidencia que os primeiros a sofrer serão os mais frágeis. Há alguma dúvida de quem vai passar fome primeiro?

Temos que admitir que a quarentena total não foi ideia nossa, do Brasil ou brasileiros. Diante do H1N1 (gripe suína), da dengue ou da zika, nunca falamos sobre isso. Foi uma agenda que veio de fora e rapidamente nos convenceu. Mas não é preciso ser médico para saber que nem todos os pacientes devem tomar o mesmo remédio, pois cada um tem a sua realidade. Não somos a China, a Itália, ou os EUA; cada um desses países combate o surto como pode e uns acertarão mais e outros, menos.

O próprio Dep. Estadual Marcelo Freixo (que é oposição ao atual governo) diz em vídeo, disponibilizado em seu canal de Youtube, do dia 21 de março, em reunião com o governador Witzel: “Você imagina para uma família que tem oito pessoas e um cômodo e dizer: ‘não saiam de casa’” Essa fala expressa o absurdo que é, frente à realidade do Brasil, recomendar isolamento em casa. É um remédio que não existe aqui. Para que receitá-lo? Na Europa, onde a maior parte da população reside em casas mais bem equipadas, isso já é difícil. No Brasil, não é viável! Aqui, uma alta porcentagem das crianças vai para escola para ter o que comer. Como receitar quarentena total nesse cenário?

Não há respostas prontas e gerais. Quem é de grupo de risco deve se isolar, mas quem pode fazer home office que se isole também, sem problemas. Mas, quem não pode fazer, tome todas as medidas profiláticas possíveis: lave bem as mãos, não compartilhe objetos, evite aglomerações e volte a trabalhar como puder, gerando valor para si e para os outros.

Esse vírus vai passar. Temos que garantir o pão e salvar vidas. Vamos persistir com esperança.

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